sábado, 5 de julho de 2014

AMAR COM OS DEDOS


SOBRE HUMORES ÁCIDOS


(Se eu fosse uma fruta seria um morango. Os pontinhos são as sardas. O vermelho é meu rosto quando tenho calor, vinho na cabeça ou vergonha na cara. O gosto é vezes doce, vezes ácido.)
Sou boa gente. Não sei se você concorda ou se sabe disso, mas sou boa gente mesmo. É claro que sou humana, tenho pensamentos que me traem, sinto inveja e tenho preguiça. Na verdade, sou a maior pecadora. Sete pecados capitais? Pratico todos. Nunca roubei ninguém. O máximo que já fiz foi pegar umas moedinhas que meu pai deixava em cima da mesa. Mais nada, eu juro.
Admiro muito quem tem bom humor o dia inteirinho. Não consigo, não é de mim. Uma pequena coisa se transforma em catástrofe no meu dia. Deve ser porque eu tenho expectativas demais, espero demais de mim e dos outros. E me frustro, te frustro, nos frustro.
Meu humor é ácido. Sou irônica, perco a paciência e o interesse em gente que não entende ironias, afinal, não entender ironias é a coisa mais broxante que existe. Tem gente que não gosta desse meu lado. Na verdade, tem gente que não gosta de nenhum lado meu. E agora eu estou entendendo que não tenho obrigação de ser quem todo mundo espera que eu seja. Já dá trabalho ser eu mesma, imagina ser a pessoa que você quer?
Não tenho muito saco para puxadores de saco. Por favor, não puxe meu saco. Por favor, não puxe o saco de ninguém na minha frente. Acho irritante e chato. Não tenho o menor problema em emprestar coisas, sou aquele tipo de gente que sai dando tudo. Por favor, não pense besteira. Gostou da minha bolsa? Pega, leva. Gostou da minha pulseira? Tô tirando, toma aqui. Sou assim. Por isso, muita gente interesseira já se aproximou de mim - o que me deixou rebelde e mais ácida.
Só tenho apego ao que é "meu" emocionalmente. Pode levar minhas coisas materiais. Mas não encosta na minha família, meus amores e amigos. Viro bicho. Protejo. Defendo. Amo. E sinto muito, muito ciúme. Sou ciumenta assumida. Tenho até carteira do Clube das Ciumentas Reunidas. E não acho que isso seja sinal de insegurança ou infantilidade. Como diz minha avó "quem ama cuida"

Por Clarissa Corrêa

CARÊNCIA DE TERRA


Ando farta
De amores desprovidos de estrado,
De sentimentos sem esteio, 
De saudades sem alicerce.
Preciso inventar
Uma janela para fugir do céu
Mesmo que, ao pular,
Eu me transforme
Em meu próprio chão.

POR Nara Rúbia Ribeiro

domingo, 15 de junho de 2014

O ENCONTRO DE DUAS ALMAS


"Duas almas são predestinadas quanto tem uma missão a cumprir juntas, e assim, por ter sido um encontro marcado lá do outro lado, onde pactuaram voltar, para se encontrarem e realizar determinada missão, sendo assim, quando as almas se encontram, tudo pode acontecer, podendo haver a explosão do amor não vivido em outras vidas. Este amor chega sem ter dia marcado ou momento marcado para acontecer. Simplesmente chega, e se instala, criando uma verdadeira orgia de sentimentos alegres, que modificam todos os propósitos e conceitos até então firmados. O encontro de duas almas tem como foco principal, não a aparência física, mas a afinidade entre elas existente, e o que o destino a elas destinou, como o porquê e o quando tudo deve acontecer. Existem momentos de tristeza, causada por uma dúvida que machuca, que gostaria de saber o porquê de não se terem encontrado antes, ainda mais quando o momento desse encontro acontece quando não é mais possível extravasar toda a plenitude do amor que trazem, quando não é mais possível viver a alegria de amar e querer compartilhar a vida com o outro. Enfim, como essas almas se sentem sem a possibilidade de realizar este amor em total plenitude, o que causa um inexplicável sentimento de saudade de algo que não foi vivido. Uma saudade doída de algo vivido em outras vidas, saudade daquilo que poderia ter sido, mas que por alguma razão não o foi. Reconhecem, porém, que não haverá retorno para suas pretensões, e mesmo estando distantes, entendem a alegria, a tristeza, o querer um do outro. Estas almas falam além das palavras, e aliás, delas não precisam, pois se comunicam, se encontram, se amam pelo éter, pelo espaço sideral. São encontros etéricos.Se o reencontro ocorrer no tempo certo, estas almas afins se entrelaçam e buscam a forma de juntas ficarem, num processo contínuo de reaproximação até a consumação do resgate daquilo que vieram cumprir. Se diferente for, se o reencontro ocorre num espaço de tempo diferente do que suas realidades possam permitir, ainda assim estas almas ficam marcadas, e nunca conseguirão se separar, mesmo que os corpos se separem, elas continuarão a se sentir, pois almas que assim se encontram não mais se sentirão sozinhas, pois reconhecerão a necessidade que têm uma da outra para toda a eternidade. São almas que atravessam os tempos, as muitas passagens, buscando o resgate final de seu amor, até que em determinada passagem conseguem cumprir o resgate, tendo então seu descanso final, quando conseguem ter um lindo dia.


Marcial Salaverry(VIA SALA DOS MEDIUNS)

INSENSATEZ



Fabrício Carpinejar

Você me permite ir, você me permite escolher, você é democrática, sensata, elegante, madura, equilibrada, não procura forçar sua opinião, impor sua vontade, você oferece espaço, aguarda, pede que eu reconheça seu valor, sai de perto para não pressionar, chora e sofre distante, recrimina o ciúme e me exclui.

Desculpa. Mas amor não é justiça, amor não é julgamento, amor não é consciência, amor não é controle.

Amor é um filho da p. da insistência, é manter-se perto, próximo, junto, grudado, até que o entendimento da vida estale.

Não é se afastar, não é facilitar o trabalho dos outros se afastando. Não é exigir que venha agora ou nada, que venha inteiro ou nada. Diante do extremismo, sempre ficaremos com nada.

Partilho da crença de que o provisório é tudo.

Pode vir pela metade, fragmentada, dividida, um terço de si, uma parcela, que eu aceito e completo. Eu lhe quero do jeito que der, do jeito que for.

Pode vir confusa, em crise, indecisa, ambígua, que logo unifico seus receios.

Não confio na saudade, confio na presença. A saudade só adoça o arrependimento.

Eu não saúdo a saudade. Eu dou a porta de saída para a saudade.

É com a convivência que vou mostrar que sou o melhor para seu temperamento, que sou também o pior, que sou o que espera, e sou também o que não espera, que sou sua alegria e também sua desordenada raiva, que sou seu encantamento e também sua decepção, que sou o centro de seus dias e também as margens de suas noites.

Não serei educado para deixá-la em paz. Nunca. Amor quando dói é mal-educado. Falarei excessivamente, farei sinais e gestos passionais, tremerei mais do que copo de morto - terá o que se lembrar de mim.

Não finja que deseja meu bem. Não há bem com a distância. Deseje meu mal, mas deseje que eu seja seu.

Aquele que é o nosso maior erro costuma ser o grande amor de nossa vida.

Da série "Ficções do Amor"

quinta-feira, 1 de maio de 2014

APENAS UM SONHO




Entre os apelos da carne e o prazer dos fluídos, foi no meu corpo  despido  que o seu encontrou o abrigo.  Entre os afagos contidos por desejos imagináveis, foi nos meus braços  que você  se aqueceu e gostou do que fez e deixou fazer.

Pelas lembranças que traz, por trás dos apelos sonoros rompendo o silêncio da noite, em meio aos lençóis perfumados  macios, foi comigo que esteve, sorriu  e gemeu.  E nem sei se vale dizer da surpresa, da intensidade dos gestos. Nem sei se eu soube dosar a carícia além daquilo que quis ou se quis mais ainda por te ver tão feliz. 

Mais que carinho, os sussurros,  aromas... Muito mais do que a intensidade do ato, foi a contundência do sentir que causou em você tanto espanto. O sentimento, o gostar, o querer...

E eu daqui de olhos fechados, precisando sonhar também só para saber o porquê de te fazer  tão feliz. Querer olhar para você assim como se olham os amantes após o gozo e absorver a energia do carinho, sentir o que só você desfrutou.


Estar presente no sonho de alguém. Satisfazer o instinto e a emoção. Causar um tesão difícil de admitir.  Esquecer-se das condutas morais, das regras sociais e simplesmente  sentir a poesia, a essência dos corpos e dos desejos a flor da pele.  O  que nos causamos  de bom e ousamos dizer. Todo isso traz a leveza da poesia que em mim brota sempre que enfrento  e empresto o sentir alheio. 

Nem sei se é errado nem quero saber.  Agora sou poeta  e peço que chegue perto de mim como no sonho. Perto o suficiente  para um leve toque no rosto, um afago nos lábios , a carícia do olhar, um sussurro  despido de qualquer pudor a dizer para você: QUE PENA QUE FOI SÓ UM SONHO..

TALVEZ...


Talvez eu queira me alimentar de você. Da energia, do seu sonho aquilo que te fez feliz. Sou assim, seu vampiro emocional. Só apareço à noite, pois os dias deixam exposto aquilo que quero e não posso viver. O dia dissolve meu sonho e fico assim vagando. na realidade. Na rotina nem sempre cansativa, porém, imutável.

 Talvez eu seja a criança sonhando com um brinquedo novo, aquele bonito, que só se ganha em ocasiões especiais. Aquele que o amigo tem e você teve que esperar muito para conseguir. Então, dizem por aí, que o que se espera muito tem maior valor e por isso devemos ter mais apreço. Não acredito nessa quase tradição de conquistas sofridas e longas esperas, embora dispense grande consideração por quem desbrava terrenos desconhecidos. 

Seu sonho é o meu brinquedo. Uma diversão que vai durar por muito tempo. E porque vou cuidar muito bem, não vai quebrar, nem gastar, nem ficar esquecido no canto dos brinquedos sem uso .

O bom desse sonho brinquedo é que não tive que esperar. Foi  uma surpresa, um agrado especial que iluminou meu dia. Não fiz nenhum esforço e mesmo assim tem o valor das grandes conquistas. 

Para você, talvez, seja o terreno desconhecido, a magia que pode causar a descoberta. Desbravar, adentrar e morar. 

Ah... Talvez um sonho seja aquilo que motiva a alma a ir além daquilo que é permitido pelas normas sociais. Assusta,  porque,  não raro, foge da regra  e nos coloca de frente para para aquilo que pensamos nunca ter sentido.  E aí também temos que enfrentar nosso pudor, nosso preconceito. Assusta porque agrada. Assusta por ter reciprocidade no querer, no gostar...  Assusta por ser sincero, direto e possível, ainda que inviável.

Além do sonho, existe o que vai no do coração de cada um. O que vai no pensar de cada um. A eterna divergência entre a razão e a emoção não dá tréguas quando decide ir adiante. Se há oposição no pensar, nada impede que haja afinidade no querer. O sonho não faz perguntas, talvez nos deixe muitas respostas e uma imensidade de dúvidas que jamais serão sanadas. Por isso, a energia do seu sonho fez vibrar  o  coração,  irrigando toda a emoção que minha poesia precisa para viver. É assim que eu também sempre consigo o que eu quero, mesmo que seja pela alegria de um sonho dado como um presente que eu nunca esperei receber.

POR MÁRCIA TOITO
EM  30/04/20014

quinta-feira, 20 de março de 2014

A TEMPO

Ainda vou a tempo de te pedir desculpa pelas coisas que te disse quando estava zangada? 

Perdi toda a razão, ao perder a cabeça e permitir que o bicho ferido, aninhado cá dentro, deitasse as garras de fora para afastar outra agressão. Que é sempre a mesma. Tu atropelas-me. E nem notas.

Da pior forma possível, quis travar-te e embatemos os dois. Um no outro.
Desculpa. Já andei tanto, já parei tanto, já ressuscitei tanto e não fui capaz de ser melhor que tu. Talvez depois de ti, eu diga também " já me cansei tanto."
É que nunca esteve bem aceitar-te porque " tu és assim" e resignar-me à esperança de um dia seres de outra maneira. Nunca esteve bem ignorar os problemas e remata-los com um " não vale a pena " que valia essa pena e valia muito mais coisas.
Nunca esteve bem o segundo lugar...

Quando se ama, partilham-se todos os lugares, sobretudo os mais nossos, onde deixa de ser preciso estar sempre a bater à porta ou pedir autorização para entrar.

Era assim que gostava de te ter dito que me senti sempre do lado de fora, a pedir-te que te juntasses a mim.

E Tu?


IDOMIND MARIA
VIA E TU?

https://www.facebook.com/pages/E-tu/456026877804999?fref=ts

DO CORAÇÃO PARA DENTRO



POR MÁRCIA TOITO

Podemos dizer coisas sem pensar a todo tempo porque os atropelos da vida quase sempre detonam nossas energias fazendo com que o falar fique mais acelerado do que o pensar e aí a coisa complica. Complica porque não raro dizemos que amamos, que sentimos falta ou bem o contrário, que estamos de saco cheio, cansados, sem forças... Queremos ficar sozinhos. Depois com mais calma dizemos: Foi da boca pra fora, falei sem pensar. O resultado todos conhecem, corações partidos por engano de apreço ou por desapego imprudente.
Mas, enquanto o falar pode ser da boca para fora, escrever é do coração para dentro. Para dentro de quem leu e de quem escreveu. Por mais simples que seja o texto, escrever exige elaboração do pensamento. Não da para dizer " Escrevi sem pensar" Escrever é puro pensamento e quase sempre puro sentimento mesmo quando as palavras soam friamente aos olhos de quem leu. Se você ler "eu quero ficar sozinho", "eu odeio tal coisa", considere como verdade porque tem gente tentando ir além do que é dito da boca para fora.
Entretanto, quando alguém ESCREVER "que sente sua falta", "que tem muito carinho por você", "que quer te ver feliz"." Que sempre pensa em você de um jeito bom" "Que é difícil ficar longe" que em vários momentos do dia teve vontade de te ver ou telefonar para diminuir a a saudade, por favor, ACREDITE! Ninguém nunca conseguiu escrever sem pensar.

POR MÁRCIA TOITO
EM 13/03/2014

domingo, 15 de setembro de 2013

A COR DA FANTASIA



Não tenha medo
Tudo o que absolve um dia fez juízo
A culpa não nasce nua
Fantasiada ela se cria
Absorta em prejuízos
Calvários só servem aos sados-masoquistas
Carnaval é o mesmo que quaresma
O que muda é a direção da dor
E a cor da fantasia

Samuel Giacomelli

sábado, 7 de setembro de 2013

PRAGUINHAS

A vida deveria ser tão simples...
Vai ver é mesmo e a densidade dos sentimentos é que complica tudo. Queria saber cultivar só os puros. Mas as sementes vêm todas misturadas e nem sempre consigo fazer florescer apenas as boas. 
Erva daninha cresce sem precisar de cultivo, já as sementes de flores e frutos exigem um cuidado maior. 
Por isso vez ou outra me vejo entre as pragas sentimentais, sem conseguir usufruir das boas sementes que cultivo com tanto carinho.
Eu já não sei se alcançamos as coisas ou as coisas nos alcançam. Ando as voltas com uma saudade sem fim, que vez em quando incomoda,assim como as pragas num jardim.Sei que posso ir aonde quiser... Mas não antes de arrancar as praguinhas.


MÁRCIA TOITO

quinta-feira, 25 de julho de 2013

PONTO DE SATURAÇÃO

POR VINÍCIUS LINNÉ


As dores em mim não explodem subitamente. Não sou dado sempre a ações e reações. Preciso ser mais sutil do que isso. Eu acumulo não dizeres, vou somando desaforos, pequenas intempéries, minhas chuvas e tempestades de sol. Eu vou guardando tudo até sedimentar. Até acumular. Até que a saturação se dê por completo.

Eu evito os sinais prévios, os barulhos pequenos das rachaduras, eu evito demonstrar no sorriso triste qualquer marca do que por dentro se passa. Quando estou farto já é tarde. Quando estouro, eu estouro de vez.

E daí não meço palavras ou danos. Não perco tempo e não poupo sofrimento. Quando é minha vez, é minha vez. Quando eu quero fazer doer, eu sei fazer doer. E não em doses pequenas, não com uma tortura moderada e imorredoura. Eu uso toda maldade que se acumulou no meu corpo, todo veneno que encharcou meus ossos, todo fel que já não flui junto com o sangue. 

Enquanto sofro não mio. Em compensação, quando ataco, mato.


A T E N Ç Ã O


Não esqueça das fontes!

Qualquer cópia sem referências estará sujeita às medidas cabíveis.

Este texto é propriedade de Vinícius Linné e foi retirado do site: http://anjomaldito.blogspot.com/search?updated-max=2013-01-03T14:14:00-08:00&max-results=7&start=14&by-date=false#ixzz2a6TAA4ef
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

domingo, 14 de julho de 2013

O APAIXONADO JAMAIS ADIA ENCONTRO

 
 Quem está apaixonado não desmarca encontro.

...
Cancela trabalho, família, viagem, mas não suspende compromisso.

Assume prejuízo, enfrenta chefia, suporta calado todos os dissabores, mas não abre mão. Não nega o que foi firmado.

Mesmo que tenha trocado o mês ou se confundido com a data, assume o erro como acerto e segue em frente. Troca de turno com colega, compra amigos, arruma atestado médico.

Quem está apaixonado jamais desmarca encontro. Nem altera horário. Não tem coragem de pedir para que seja mais cedo ou mais tarde. Não é capaz de reivindicar 10 minutos a mais ou a menos. Não mexe no assunto. Não adapta planos. Não negocia prazos.

Aceita a data como um desígnio. Uma audiência de Justiça. Uma convocação da Receita Federal. Se não for, tem a sensação de que será preso, condenado por esnobar o amor.

Não brinca com a autoridade do encontro. Receia que não aconteça de novo, não arrisca zombar do destino. Não oferece chance ao azar. Teme um imprevisto, penteia o calendário, apressa o relógio e o coração.

Vive o transe de ser feliz, a hipnose de não pensar em um segundo plano.

Quem está apaixonado não arranja desculpa, inventa saídas.

Quem está apaixonado não se presta a solicitar fiado, paga à vista.

Só aquele que realmente não sente saudade é que adia encontro. Se o café é sempre postergado é que falta vontade.

Adiar compromisso é sinal de desamor. Não precisa de mais nenhuma prova. Não há aquele interesse máximo, aquela tara, aquela dependência.

O sujeito pode ter uma justificativa nobre: imposição do emprego, doença, tragédia. Nenhum pretexto servirá para remendar a esperança.

Não se mexe em encontro entre apaixonados. Deixa para adoecer depois, deixa para morrer depois.

Se alguém liga para reagendar sacrificou a paixão. É aviso fúnebre, é velório da voz. Significa que não está realmente a fim. Demonstra que tem um interesse passageiro, efêmero, pouco sério.

O apaixonado enlouquece com a simples hipótese de não ver mais o outro. Não vai estragar a importância do enlace, diminuir a expectativa, mostrar desapego.

Eu fiquei imensamente eufórico ao lembrar que nunca desmarquei nada com minha mulher, Juliana.

Fui me gabar para ela:

- Amor, jamais cancelamos nenhum encontro entre nós, não é legal?

Juliana me analisou com desconfiança:

- Fabrício, a gente só teve um encontro e não mais nos desgrudamos.

Eu percebi que a tática para não sofrer com atrasos e remanejos é permanecer junto desde o primeiro beijo. E não se soltar mais.

Foi o que eu e Juliana fizemos.

A paixão é um sequestro. O amor é quando pagamos o resgate.

Publicado no jornal
Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 14/07/2013 Edição N° 17491
 
 
 
 
 

sábado, 15 de junho de 2013

DERRAMADA É VOCÊ


 E se eu não me encaixasse em sua nuca de noite? Se eu não beijasse seu rosto quando você dorme dez minutinhos de tolerância? Se eu não ligasse o chuveiro antes para deixar aquecido? Se eu não preparasse seu iogurte? Se eu não levasse você ao trabalho com a rádio que gosta? Se eu não mandasse mensagens por onde ando? Se não saíssemos de mãos dadas com você invertendo o jeito de comprimir a palma para dentro? Se eu não estivesse perto para escutar seus desabafos? Se eu não recolhesse suas roupas sem que percebesse? Se eu não pressentisse seu cansaço e a objetividade da ressaca? Se eu não despertasse sua nudez com as palavras certas? Se eu não amasse sua família e seus amigos? Se eu não fizesse nenhuma provocação? Se você não ficasse muda - respirando lento - em meu ouvido? Se não segurasse minha cabeça por trás? Se não reclamasse de minha barba arranhando seu rosto? Se não dançássemos com o álcool dos olhos? Se eu não procurasse ...mexer em seu pescoço para acalmá-la? Se eu não fosse o voto de minerva de seus vestidos e sapatos? Se não abraçasse quando você está quase chorando para criar uma árvore de ombros?

Se não,
se não,
se eu não existisse, amada, o que você faria?

A saudade explica o amor.

A saudade esclarece o quanto estamos amando.

É um calorão que vem com a simples ideia de perder alguém. A garganta acelera com a ameaça da ausência. É uma falta de ar que forma o suspiro. É uma dificuldade tremenda de dormir separado, como se seu corpo estivesse sempre pela metade. É uma calamidade não apressar as pazes. É uma angústia ver o outro aborrecido.

Você passa a não suportar nem uma pequena incompreensão por muito tempo, e logo escreve e logo telefona e logo pede desculpa.

Você lembra e não acredita de tão perfeito. Só ama quem não acredita naquilo que está vivendo.

Se você não tem noção de quanto se entrega, a saudade mostra.

A saudade é um sofrimento alegre. Você sofre, mas agora acompanhada do motivo de sua saudade.

Derramada é você, apenas não parou para pensar no que sente por mim.

A saudade é parar um minuto.

Nem pare. Tente evitar. Procure fugir do assunto.

Eu sou água, você é fogo. O fogo é mais derramado do que a água.

Recomendo não olhar para baixo. Continue voando com suas labaredas. É melhor não saber.

Você ainda não conhece o tamanho de sua saudade para conhecer o tamanho de seu amor.




 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

SAUDADES

Saudade de quando o teu quando era o meu, de quando teria sido saudade do não-quando para sempre. Acontece que agora percebi: nós não temos andado pela vida rodando as cirandas que jurávamos inventar, nós temos marchado com botas de aço sobre o chão de pétalas das nossas horas.

Tiago Fabris Rendelli

quarta-feira, 5 de junho de 2013

RECORDAÇÃO

"Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado", ele disse, me olhando pelo retrovisor. Fiquei sem reação: tinha pegado o táxi na Nove de Julho, o trânsito estava ruim, levamos meia hora para percorrer a Faria Lima e chegar à rua dos Pinheiros, tudo no mais asséptico silêncio, aí, então, ele me encara pelo espelhinho e, como se fosse a continuação de uma longa conversa, solta essa: "Hoje a gente ia fazer 25 anos de casado".

Meu espanto, contudo, não durou muito, pois ele logo emendou: "Nunca vou esquecer: 1º de junho de 1988. A gente se conheceu num barzinho, lá em Santos, e dali pra frente nunca ficou um dia sem se falar! Até que cinco anos atrás... Fazer o que, né? Se Deus quis assim...".

Houve um breve silêncio, enquanto ultrapassávamos um caminhão de lixo e consegui encaixar um "Sinto muito". "Obrigado. No começo foi complicado, agora tô me acostumando. Mas sabe que que é mais difícil? Não ter foto dela." "Cê não tem nenhuma?" "Não, tenho foto, sim, eu até fiz um álbum, mas não tem foto dela fazendo as coisas dela, entendeu? Que nem: tem ela no casamento da nossa mais velha, toda arrumada. Mas ela não era daquele jeito, com penteado, com vestido. Sabe o jeito que eu mais lembro dela? De avental. Só que toda vez que tinha almoço lá em casa, festa e alguém aparecia com uma câmera na cozinha, ela tirava correndo o avental, ia arrumar o cabelo, até ficar de um jeito que não era ela. Tenho pensado muito nisso aí, das fotos, falo com os passageiros e tal e descobri que é assim, é do ser humano, mesmo. A pessoa, olha só, a pessoa trabalha todo dia numa firma, vamos dizer, todo dia ela vai lá e nunca tira uma foto da portaria, do bebedor, do banheiro, desses lugares que ela fica o tempo inteiro. Aí, num fim de semana ela vai pra uma praia qualquer, leva a câmera, o celular e tchuf, tchuf, tchuf. Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são, não? Tá acompanhando? Não tenho uma foto da minha esposa no sofá, assistindo novela, mas tem uma dela no jet ski do meu cunhado, lá na Guarapiranga. Entro aqui na Joaquim?" "Isso."

"Ano passado me deu uma agonia, uma saudade, peguei o álbum, só tinha aqueles retratos de casório, de viagem, do jet ski, sabe o que eu fiz? Fui pra Santos. Sei lá, quis voltar naquele bar." "E aí?!" "Aí que o bar tinha fechado em 94, mas o proprietário, um senhor de idade, ainda morava no imóvel. Eu expliquei a minha história, ele falou: 'Entra'. Foi lá num armário, trouxe uma caixa de sapatos e disse: 'É tudo foto do bar, pode escolher uma, leva de recordação'."

Paramos num farol. Ele tirou a carteira do bolso, pegou a foto e me deu: umas 50 pessoas pelas mesas, mais umas tantas no balcão. "Olha a data aí no cantinho, embaixo." "Primeiro de junho de 1988?" "Pois é. Quando eu peguei essa foto e vi a data, nem acreditei, corri o olho pelas mesas, vendo se achava nós aí no meio, mas não. Todo dia eu olho essa foto e fico danado, pensando: será que a gente ainda vai chegar ou será que a gente já foi embora? Vou morrer com essa dúvida. De qualquer forma, taí o testemunho: foi nesse lugar, nesse dia, tá fazendo 25 anos, hoje. Ali do lado da banca, tá bom pra você?"

@antonioprata

antonio prata
Antonio Prata é escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles "Meio Intelectual, Meio de Esquerda" (editora 34). Escreve às quartas na versão impressa de "Cotidiano".